Faculdade Asces
02 de Setembro de 2013 | 10:55 | Alexandre Costa
Um conto chinês. (Um Cuento Chino)

Uma comédia argentina muito engraçada sobre Jun (Inacio Huang), um chinês desiludido que deixa seu país para buscar, na distante Argentina, um tio, o seu único parente vivo. A trama começa com um fato incrível: Jun estava com a namorada em um barco no meio de um tranquilo lago e preparava-se para pedir a mão dela em casamento quando, de repente, uma vaca (sim, uma vaca) cai do céu, espatifa o barco e mata a noiva do chinês. Diante desse fato totalmente incomum, o chinês resolve deixar a China para não sofrer mais. E, sem falar uma palavra de espanhol, muda-se para Buenos Aires. Chega ao Aeroparque, é assaltado por um taxista e jogado no meio da rua, aos pés de Roberto (Ricardo Darín), o dono de um armazém de ferragens ranzina e também desiludido após ter perdido os pais enquanto participava da guerra das Malvinas. Roberto não fala chinês e Jun não fala espanhol. Roberto decide o chinês na delegacia, mas não o aceitam lá. Tampouco na embaixada chinesa! Só resta levá-lo para casa e ajudá-lo na busca pelo tio. A trama toda gira em torno dessa amizade improvável e lhe fará dar boas gargalhadas. Não só isso: vale notar que as barreiras linguísticas nada valem quando se trata do mútuo reconhecimento humano. Um Conto Chinês foi premiado como o melhor filme do Festival de Cinema de Roma e recebeu o Prêmio Goya de melhor filme hispano-americano em 2011.

Diretor: Sebastián Borerzstein
Elenco: Roberto Darín, Inacio Huang e Muriel Santa Ana
Argentina/Espanha, 2011

 
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27 de Agosto de 2013 | 10:00 | Alexandre Costa
A vítima perfeita. (In her Skin)

Filme australiano sobre a inveja humana e o culto ao corpo incentivado pela sociedade de consumo. Pode-se desejar ter uma vida diferente, corpo diferente, destino diferente? A psicanálise vai nos dizer que dizia que o corpo é destino e que nós somos o nosso corpo. Essa é a pergunta central do filme australiano sobre duas amigas adolescentes com destinos díspares. Caroline (Ruth Bradley) tem uma família feliz, é uma modelo belíssima, bailarina, atraente e muito popular na escola; Rachel (Kate Bell) a outra amiga, ao contrário, tem o corpo bem fora do padrão e um pai problemático (Sam Neal) que a trata de forma indiferente. A trama anuncia um estranho caso de roubo de identidade, acontecido na Austrália. Não obstante, Rachel sonha em ser Caroline, ter o corpo da amiga, pais amorosos, ser bem-sucedida (o desempenho da atriz que faz Rachel é excepcional). Um belo dia, a garota linda desparece ao tomar o ônibus de volta da escola para casa. O namorado é o primeiro suspeito e a família inicia uma longa e desesperada busca por Caroline e, com a sua obstinação, obriga a polícia australiana a realizar investigações que conduziram a um desfecho surpreendente. O filme baseia-se numa história real e vai levar a gente a refletir sobre o onipresente culto ao corpo e sobre o estigma que recai sobre quem não preenche os padrões da moda.

Diretor: Simone North

Elenco: Guy Pearce, Ruth Bradley, Sam Neal e Kate Bell

Austrália, 2009.

 
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20 de Agosto de 2013 | 09:33 | Alexandre Costa
Precisamos Falar sobre Kevin (We Need to Talk about Kevin)

Esse é um filme perturbador sobre a vida de uma típica família americana que passa por uma catástrofe provocada pelo filho adolescente Kevin. A mãe, Eva Katchadourian (Tilda Swinton) agora trabalha numa agência de turismo, a despeito de ter sido uma famosa escritora de livros turísticos; ademais, Eva é desprezada por seus vizinhos. O filme, então, narra os eventos que levaram à destruição da feliz vida daquela família.

Eva era casada com Franklin Plaskett (John O. Reilly), um fotógrafo publicitário de sucesso e ambos viajavam o mundo. Até que Eva engravida tardiamente e nasce Kevin (Ezra Miller), o primogênito. Seguindo o paradigma social americano, o casal vende o seu loft na cidade e compra uma casa no subúrbio para educar o filho.

Ora, desde bebê Kevin apresenta um comportamento estranho: silencioso e distante do ambiente, o garoto parece estar inteiramente ausente da vida da família. Olha raivosamente para a mãe e recusa-se a assimilar qualquer coisa que Eva queira porventura lhe ensinar. A mãe não encontra uma explicação razoável e busca ajuda no pai, o qual não consegue ver nada de errado no filho.

Kevin vai crescendo e demonstrando sempre um ódio incontrolado da mãe. Conviver com ele torna-se insuportável para Eva e quando o garoto torna-se adolescente no curso médio, os conflitos aumentam, pois Kevin é muito inteligente e rebate qualquer argumento da mãe.

A relação entre ambos é um beco sem saída, uma sequência de brigas e de atos pouco razoáveis por parte do garoto. O filme narra, através de flasbacks, uma catástrofe anunciada (não vou revelar qual é, assista!), o resultado perfeito de uma sociedade do espetáculo, associada ao culto à celebridade e fundada no sem-sentido de vidas submetidas à lógica do capitalismo pósmoderno.

Ninguém pense que esse filme é um tolo produto comercial, pretendendo mesclar “terror” e escândalo social. Ele é, na verdade, um filme perturbador e que não oferece respostas fáceis: quem é responsável pela insanidade de Kevin? A família? O acaso da natureza? Conversar sobre Kevin teria evitado a tragédia? O espectador queda-se mudo, perturbado por esse tour de force pelos labirintos da alma humana.

Diretor: Linne Ramsey
Elenco: Tilda Swinton, John C, Reilly e Ezra Miller
Reino Unido /EUA  2011.

 
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12 de Agosto de 2013 | 10:29 | Alexandre Costa
TESIS SOBRE UN HOMICIDIO: A DÚVIDA QUE PERTURBA

O título do filme em espanhol refere-se a uma interessante película argentina lançada no Brasil em julho. Na Argentina, teve mais de um milhão de espectadores, mas já saiu de cartaz. Só pude vê-lo em DVD. Se você puder assistir, não perca!

A história envolve um professor de direito penal da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, chamado Roberto Bermúdez (Ricardo Darín). Ele dá aulas sobre a retórica jurídica aplicada aos tribunais do júri. Num fim de tarde, durante uma de suas aulas, descobre-se o corpo de uma jovem assassinada e violentada no estacionamento da Faculdade. Bermúdez é um dos primeiros a chegar ao local, já cercado pela polícia e começa a desenvolver a estranha tese que o assassino é Gonzalo, um dos seus alunos da pós-graduação. Naquela noite, Gonzalo (Alberto Almann) havia chegado atrasado e, durante a aula, argumentava junto ao professor que o direito penal tinha várias lacunas que permitiam a impunidade de criminosos, desde que eles fossem suficientemente poderosos ou inteligentes para ocultar provas ou iludir a polícia.

Enquanto a polícia afirma que se trata da obra de um psicopata misógino, Bermúdez passa a acreditar que o seu aluno resolveu cometer o crime para provar o seu ponto de vista. Diante do cadáver, o professor desconfia que aquela tese poderia ter sido brutalmente aplicada ao mundo real! O aluno é inteligente e arrogante, filho de um riquíssimo e antigo amigo de Bermúdez e pode, perfeitamente, considerar-se inatingível. O professor resolve iniciar uma investigação por conta própria, já que considera erradas as teses da polícia. Começa a entrevistar testemunhas e a seguir o aluno em buscas de provas cabais de autoria do crime.

Na verdade, a sua tese torna-se uma obsessão. Bermúdez larga tudo para dedicar-se à solução do crime, porque considera que o assassinato foi um desafio intelectual do aluno para o professor. Nos debates com Gonzalo, levantava-se a questão sobre o que seria a “verdade” no direito e como prová-la. Esse problema, sem dúvida, envolve um aspecto muito controverso na retórica jurídica. Perelman, o pai da Nova Retórica, afirma que o Direito lida com o provável, com o preferível, com o verossímil (aquilo que parece ser verdadeiro, mas pode também não sê-lo). Chalita diz que, no Direito, a verdade é a melhor versão!

De toda forma, esse aspecto provisório e talvez precário da verdade jurídica passa a assombrar Bermúdez. A dúvida faz com que apareçam aspectos sombrios de sua personalidade e ele recorre à violência e ao álcool para tentar provar o seu ponto de vista.

Trata-se de um filme bem dirigido e com uma boa dose de suspense, mantendo o espectador interessado no desfecho até o final. Darín é um excelente ator e cria um personagem inteligente e muito cáustico, sempre descrente das convenções sociais e do suposto poder do direito.

Muito distante de qualquer certeza cartesiana, o filme funda-se na dúvida, na desconfiança e talvez não ofereça conclusões definitivas. Nesse ponto, o diretor parece ter se inspirado no filme Blowup, de Antonioni, no qual um fotógrafo tira fotos em um parque londrino e, numa delas, crê ter documentado, involuntariamente, um assassinato. Se o filme de Antonioni é hermético, sofisticado, adotando uma linguagem sutil e pouco atraente para a maioria dos espectadores, o filme argentino, ao contrário, adota uma linguagem ágil e nervosa que retrata fielmente a vida argenina contemporânea. Ademais, além de passear pelos austeros e frios corredores de bela Faculdade de Direito da UBA, você ainda exercita a sua imaginação e a sua capacidade de discernir o verdadeiro do verossímil.

 

TESIS SOBRE UN HOMICIDIO

Diretor: Herman Goldfrid

Elenco: Ricardo Darín, Calu Rivero, Alberto Almann

Argentina/Espanha 2013

 
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02 de Agosto de 2013 | 09:42 | Alexandre Costa
KILER JOE: MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe)


Um filme lunático. O septuagenário diretor William Friedkin (O Exorcista, Operação França) criou um filme chocante sobre uma família de classe média texana branca completamente imbecil. Ele usa o clichê do idiota alienado tomador de cerveja para revelar a face sombria da pobreza norte-americana, incapaz de seguir, conscientemente, as regras de convivência “civilizada”, impostas pelo american way of life.

A trama é bizarra: Chris (Emile Hirsch), o filho de um casal desequilibrado e separado, aposta em cavalos e vende drogas, além de dever cinco mil dólares aos grandes traficantes da cidade. Jurado de morte e sem recursos para quitá-las, Chris ouve falar que sua mãe, uma alcoólatra drogada e devassa, possui uma apólice de vida de 50 mil dólares em caso de morte por acidente e cujo beneficiário seria Dottie (Juno Temple), a filha mais nova do casal. O filho convence Ansel (Thomas Hayden Church), seu pai e ex-marido dela, de que a melhor solução seria matá-la e ambos contratam um policial corrupto de Dallas que atua como pistoleiro nas horas vagas para fazer o serviço, chamado Killer Joe (Matthew McConaughey, cuja ótima performance consegue transmitir o cinismo niilista que caracteriza alguém que mata por dinheiro).

Joe exige pagamento adiantado (25 mil dólares), mas concorda em receber o pagamento com a grana do seguro, desde que receba a garantia de que Dottie seja o seu objeto sexual enquanto o dinheiro não sair. Ela também concorda com a morte da mãe e apaixona-se por Joe, que se veste todo de preto, fala baixinho, é conciso, pragmático e impiedoso. O pistoleiro logo descobre que lida com idiotas perfeitamente simétricos (qualquer que seja o ângulo de visão, a idiotice permanece inalterada) e impõe as regras do jogo. Outro personagem interessante (e muito importante) é Sharla (Gina Gershom), a ninfomaníaca madrasta dos dois irmãos.

Está montada a trama, narrada com um implacável humor negro que desnuda o vazio existencial de vidas moídas pelo sonho americano (a terra dos bravos, onde tudo é possível). A violência está sempre presente e nas cenas finais beira o ridículo.

Roger Ebert, crítico do Chicago Sun, diz que o filme é um conto de fadas às avessas, já que Cinderela confunde um assassino com um príncipe! Atenção: esse é um filme bem dirigido, com um elenco ótimo, mas que não deve ser assistido por pessoas de estômago fraco. Ele lhes trará uma sensação de estranheza, como se um terremoto moral tivesse varrido todos os seus valores.
 
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Alexandre Costa
Este Blog traz a relação entre o que é produzido pelo cinema e o que é discutido em filosofia. Dicas, críticas e uma análise geral da sétima arte você encontra aqui.
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