Faculdade Asces
02 de Agosto de 2013 | 09:41 | Alexandre Costa
O Dublê do Diabo: habitando o inferno do poder sem limites


O filme é uma adaptação do livro de Latif Yahia, ex-tenente do exército iraquiano que, devido à grande semelhança física com Uday Hussein, o filho mais lunático de Saddam Hussein, foi obrigado a assumir a arriscada tarefa de substituí-lo em algumas ocasiões. Ambos tinham sido colegas de escola na juventude e Udai foi convencido pelo serviço secreto de Saddam a obrigar Latif a ser o seu dublê de corpo

Latif não teve opções: ou tornava-se dublê de Udai ou sua família seria morta. Latif foi submetido a várias cirurgias plásticas para aumentar a semelhança com Udai. A função era muito perigosa porque implicava passar-se pelo odiado filho de Saddam em cerimônias públicas e em viagens oficiais pelo país, sempre sob o risco de morte.

E, de fato, Latif, o dublê, sofreu onze atentados com metralhadoras e bombas, assumindo plenamente o risco de “ser” Udai, até conseguir fugir do Iraque. Ademais, ao passar a morar no palácio de Saddam, Latif passou a viver a experiência do dinheiro, das mulheres fáceis, dos carrões, da corrupção e da violência irracional.

Visto de dentro, o palácio de Saddam Hussein só exibe intrigas e intimidação constante, expressando os critérios ilógicos e contraditórios que regiam a conduta de todos naquele ambiente. Ali, as arbitrariedades da família Hussein eram a regra e ninguém estava a salvo de espancamentos, torturas, assassinato e até mesmo estupro.

Uma das diversões preferidas de Udai era passear por Bagdá em busca de belas jovens colegiais menores de idade, para sequestrá-las e seviciá-las, matando-as em seguida e jogando seus corpos em terrenos baldios. O catálogo de loucuras mostrado pelo filme provoca a nossa revolta e mostra que a tirania e o poder absoluto corrompem o ser humano até o seu âmago.

Vale notar a insatisfação existencial que assola Udai, o vazio ontológico e ético que caracteriza a existência de uma pessoa que escolheu a prática do mal como um estilo de vida. A consequência pode ser a morte violenta e a destruição.

Os extras do bluray trazem uma entrevista com o Latif Yahia e com alguns cientistas políticos. Na opinião deles, a família Hussein nunca passou de uma máfia que se apoderou do Estado iraquiano e desenvolveu suas atividades criminosas à sombra de uma aparente legalidade constitucional. Trata-se de algo preocupante para as democracias, na medida em que não raramente outras famílias mafiosas (Kadafi e Assad, por exemplo) também praticaram e ainda praticam crimes e desmandos ocultando-se sob o manto das razões de Estado.

O filme, enfim, é interessante porque chama a nossa atenção para o potencial de maldade inscrito na mente humana quando se exprime no espaço público, especialmente quando disfarçada de conduta legítima de um governante que finge encarnar interesses nacionais e religiosos.


Ficha técnica: O Dublê do Diabo (The Devil´s Double)
Diretor: Lee Tamahori (007, Um novo dia para morrer)
Elenco: Aidan Aquilina, Akin Casi, Dominic Cooper
Bélgica/Holanda 2011
 
Comentar Imprimir
 
01 de Agosto de 2013 | 11:19 | Alexandre Costa
Os Bórgias: uma familia mafiosa no papado

Vale a pena assistir ao seriado Os Bórgias, que narra, nas duas temporadas disponíveis em DVD, a história da dinastia Bórgia, uma família de origem espanhola que chegou ao trono de São Pedro através de corrupção, falsas promessas, envenenamento, arranjos matrimoniais estratégicos, guerras e muita hipocrisia. Historicamente fiel, a série desenha um painel de violência e de manipulação da credulidade humana que beira o inverossímil.

A direção geral é do cineasta irlandês Neil Jordan (Traídos pelo Desejo, A Companhia dos Lobos, Entrevista com o Vampiro, Monalisa), com produção canadense-húngaro-irlandesa; a fantástica direção de arte desenha uma belíssima reconstituição da época que convence o espectador de que os fatos narrados aconteceram num contexto muito semelhante (no filme, o tecido púrpura dos cardeais, por exemplo, é fornecido pela mesma empresa que o fornece ao Vaticano).

O ator britânico Jeremy Irons interpreta Alexandre VI e consegue dar ao personagem os ares de cinismo, de deboche e de arrogância necessários ao sucesso de alguém tão corrupto. Rodrigo Bórgia nasceu em 1431 em Xátiva, Espanha e ainda adolescente tornou-se o protegido de um tio, bispo de Valência. Em seguida, mudou-se para Itália para estudar na Universidade de Bolonha e foi tornado cardeal pelo papa Calisto III. Foi ainda vice-chanceler da Igreja, o que lhe deu muito poder e riqueza.

Com a morte de Inocêncio VIII em 1492, Rodrigo candidata-se a papa e, mediante suborno, envenenamentos e promessas de propriedades e de honrarias aos demais cardeais, derrota os cardeais Sforza e Della Rovere, elegendo-se papa com o nome de Alexandre VI. Começa então uma era de desmandos, de crimes e de depravações jamais vistos em Roma.

Irons consegue criar a imagem de um papa niilista e prepotente, além de impiedoso e manipulador. Alexandre VI, dizendo-se o Vigário de Cristo, costumava calar os seus opositores valendo-se de um argumento irrefutável: ele era do defensor da Cristandade, representante de Deus na Terra e chefe da Santa Madre Igreja. Em nenhum momento, nem mesmo entre familiares, Bórgia deixava de usar o “nós”, plural majestático que indicava que ele não falava sozinho, mas que era o porta-voz de Deus. E como era impossível consultar Deus para avaliar a veracidade do Bórgia, então a última palavra sempre seria a de Alexandre VI.

Alexandre VI administrou os estados papais da Itália central e realizou alianças estratégicas com reis e duques europeus, arranjando e desfazendo casamentos de Lucrezia e dos demais filhos. Ele chegou até mesmo a executar o célebre Tratado de Tordesilhas, dividindo as terras do Novo Mundo entre Espanha e Portugal. Tão logo assumiu o trono de Pedro, nomeou cardeal seu filho de 16 anos, César, além de mais dois sobrinhos. Juan, o outro filho, era o comandante dos exércitos papais. Lucrezia, a filha, passou para a história como símbolo da devassidão e do oportunismo.

A sua conduta amoral trouxe-lhe muitos inimigos, entre eles Girolamo Savonarola, monge dominicano que, à época, pregava em Florença contra os Médicis e contra o papa Bórgia. Para calá-lo, Alexandre VI ofereceu-lhe o chapéu cardinalício, prontamente recusado por Savonarola. O monge conseguiu criar em Florença um movimento fanático contra as artes e as ciências renascentistas, queimando livros de Maquiavel e obras de Boticelli, entre outros. Terminou na fogueira, para alívio de Bórgia.

Se você gosta de cinema e de história, essa série é imperdível. David Oakes faz Juan, François Arnaud faz César e Holliday Granger representa Lucrezia. E caso queira aprofundar os seus conhecimentos, poderá ler ou o livro de Mario Puzo, Os Bórgias ou o de Volker Reinhardt, Bórgia, o Papa Sinistro.

E o que seria o veneno cantarela? Esse veneno, conhecido como o veneno dos Bórgias, era produzido a partir do arsênico, uma substância encontrável na natureza e nos resíduos de produção do ferro e do cobre (alguns dizem que o veneno dos Bórgias era uma mistura de arsênico com tripas de porcos putrefatas, aguardando-se um mês para que fosse produzido e destilado um líquido inodoro e incolor capaz de matar em poucas horas, em meio a sofrimentos terríveis). O cardeal Della Rovere foi vítima do cantarela, administrado por um lacaio dos Bórgias. Finalmente, historiadores dizem que Alexandre VI e seu filho César morreram ao ingerir vinho com cantarela, destinado a um cardeal. Outros historiadores dizem que ambos morreram de uma febre que grassava em Roma à época (1503).

E por que chamar os Bórgias de “família mafiosa”? Afinal, a Máfia é uma invenção italiana do século XIX, significando os grupos que praticam o crime organizado obedecendo a uma hierarquia de poder própria e com uma lógica administrativa que inclui segmentos do Estado, como o Executivo e o Judiciário. A Máfia torna-se crime organizado e entrelaça-se com o poder político oficial, dali extraindo vantagens, privilégios e imunidade. E quando os seus negócios criminosos tornam-se muito conspícuos e a polícia passa a perseguí-los mais diretamente, os mafiosos cooptam juízes, policiais e políticos para protegê-los.

No caso da máfia Bórgia, eles ocupavam uma posição central na hierarquia do poder europeu à época, administrando a Igreja, o órgão responsável pelo controle e difusão da ideologia cristã na Europa e no Novo Mundo. Eles eram o poder e nunca hesitaram em cometer crimes bárbaros porque o seu Capo possuía o inacreditável poder de decidir o que era bom ou mau aos olhos de Cristo.

Vale a pena gastar algumas horas diante do televisor com essa série tão interessante. Sem intervalos publicitários e com informações extras inteligentes, a série, no DVD, satisfaz tanto o nosso prazer estético quanto a nossa curiosidade histórica.
 

 
Comentar Imprimir
 
16 de Fevereiro de 2012 | 17:07 | Alexandre Costa
HOMENS E DEUSES (Des Hommes et des Dieux)

HOMENS E DEUSES (Des Hommes et des Dieux)

Diretor: Xavier Beauvois
Elenco: Lambert Wilson e Michael Londsdale            
França 2010                  DVD IMOVISION

Um filme extraordinário, impressionante! Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes 2010, vencedor do Cesar na França e muitos outros prêmios bem merecidos. Um maravilhoso filme sobre a tolerância e a fraternidade.

Ele mostra a história real da comunidade de oito monges cistercienses franceses no mosteiro de Atlas, no deserto de Magreb, Argélia, em 1990. Os primeiros trinta minutos do filme servem para mostrar a vida monacal pacata e recolhida. Em torno do mosteiro situa-se uma pequena comunidade muçulmana e todos convivem em paz. Frei Christian (Wilson) é o líder dos frades e procura servir àqueles pobres segundo os preceitos da fé e da ética cristãs. Frei Luc (Londsdale) é o único médico da região e, apesar da idade, chega a atender até 150 pessoas pobres num único dia. Fornece os remédios e trata a todos com generosidade e respeito. Os frades criam carneiros e cabras, são agricultores e apicultores. Rezam e cantam cânticos gregorianos em louvor a Deus, lêem e escrevem cartas, ouvem música e discutem filosofia durante o jantar, enfim, uma vida quieta.

Infelizmente, a facção guerrilheira e terrorista Jammal Islamya instala-se na região e começa a praticar atentados e seqüestros indiscriminadamente. O governo argelino reage, envia tropas do exército para combater os terroristas e irrompe enorme violência.

Sabe-se que a colonização francesa explorou e humilhou os argelinos, além de ter impedido o progresso material, educacional e cultural daquele país e a guerrilha

é uma reação violente e extemporânea àquele domínio injusto. Subsiste, ainda hoje, entre os argelinos um ressentimento e um desejo de apagar a era colonial; e, paradoxalmente, na França atual, políticos como Sarkozi (filho de imigrantes) incentivam o racismo e a exclusão.

Os frades eram, involuntariamente, um símbolo francês. Uma autoridade do governo argelino os convoca e lhes oferece proteção, mas os frades a recusam (sabem que isso os distanciaria da população). Em seguida, o governo argelino sugere que deixem o país, pois não pode mais protegê-los.

Num trecho do filme um dos frades cita Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do sec. XVII e inventor da primeira máquina calculadora:

“Os homens nunca cometem o mal de forma tão completa e alegre como quando o fazem por convicções religiosas”. Ora, esse pensamento resume o drama do filme, a saber: como lidar com a violência irracional do fanatismo? Devem os frades deixar e região em busca de abrigo, salvaguardando suas vidas para servir em tempos mais favoráveis? Isso não seria desonrar os seus votos? Eis um drama ético/existencial que envolve essencialmente a dignidade humana!

Todos os frades debatem, votam, mas não chegam a uma conclusão definitiva. A dúvida e o medo rondam aquela comunidade serena e virtuosa, e o filme mostra passo a passo a solidificação da posição final: ficar, a despeito do perigo. A decisão se dá numa cena belíssima: ao som do Lago dos Cisnes, os monges jantam, tomam vinho e decidem, corajosamente, enfrentar os seus destinos. Estão ali para servir e seguir o exemplo de Cristo.

Tzetan Todorov, no livro Face ao Extremo, define a dignidade tanto como a aptidão interior para governar a si mesmo quanto a manutenção da liberdade de escolher a atitude a tomar em situação extrema. A dignidade seria a recusa a submeter-se à pura lógica do interesse pessoal e do proveito imediato: os frades rejeitam os valores obtusos e excludentes do grupo terrorista.

O sentido do dever, tal como analisado por Kant, origina-se numa fonte que eleva o homem acima de si mesmo, ressaltando a sua personalidade, isto é, a sua liberdade e a sua independência do mecanismo da natureza. O dever caracteriza a autolegislação da razão humana, capaz de escapar às inclinações sensíveis e instalar o reino da ação racional, inteiramente governada por princípios categóricos inflexíveis.

O filme mostra que os frades agem segundo uma lei moral definida, conforme uma ética que privilegia o outro e o inclui como igual, ao passo que os terroristas apenas adotam uma convicção cega, sem exame e voltada à eliminação do diferente. Sem medo, os frades recusam o império das armas e praticam o diálogo. São vistos com desconfiança tanto por um coronel do exército, que os considera simpatizantes do terror, quanto pela facção islâmica, que os considera aproveitadores e representantes do colonizador.

Os monges do mosteiro Atlas são um exemplo de como o homem, esse ser frágil e contraditório, consegue enfrentar o perigo e a morte com a dignidade de quem sabe que a prática do bem é a única alternativa que conduz a uma vida duradoura feliz. Vale notar que Xavier Beauvois, o diretor do filme, não é crente, mas criou um filme que nos ensina que o cumprimento do dever e obediência a princípios elevados devem ser ações admiradas por religiosos, agnósticos e ateus.

ATENÇÃO: O filme “Homens e Deuses” será exibido pelo Cineclube Cinesofia terça-feira 28 de fevereiro de 2012, no auditório da ASCES, às 14:00h.

 
Comentar Imprimir
 
12 de Agosto de 2008 | 17:14 | Alexandre Costa
Falsa loura: aprendendo as diferenças

O que dizer de um filme que começa citando Sócrates e a sua famosa tese da inseparabilidade da dor e do prazer e, logo em seguida, mostra duas mulheres belíssimas dançando sensualmente? Estranho, não? O diretor Carlos Reichenbach (Garotas do ABC, Anjos de Arrabalde) dá mostras da sua erudição e do seu talento com esse interessante filme sobre as brasileiras operárias.

Original e criativo, o diretor brinca com os gêneros fílmicos, citando não apenas diretores, mas até mesmo o filósofo medieval João Scoto Erígena, numa rápida referência à contemplação mística. Reichenbach  também brinca com o kitsch, como na cena em que o personagem de Maurício Mattar canta para Silmara uma canção melosa num cenário de papelão sobre um mar de plástico azul (lembra o Fellini de La Nave Va). Em outra cena inesperada e heterodoxa, uma garota quase nua comenta o pensamento de Sócrates. A música é ótima, as atrizes são lindas, o filme todo é uma homenagem às mulheres.

Ora, os antigos filósofos hedonistas consideravam que o bem é o prazer e que o mal é a dor. Discordando deles, Kant condenou o hedonismo como uma “moral material” incapaz de prover completa segurança aos conceitos morais fundamentais. De toda forma, para os antigos a busca filosófica da felicidade estipulava que não havia incompatibilidade entre a felicidade e o bem. O filme pode também ser visto como uma análise das relações prazer/dor.

Reichenbach mostra a história de Silmara (Rosanne Mulholand), operária numa fábrica em São Paulo e dona de rara beleza. Loura tingida, ela é “descolada”, auto-suficiente, parece entender de moda, de dança e de música. Pontifica entre as demais operárias como um ideal inatingível! Silmara está em busca da “vida boa”, para ela apenas uma concepção confusa das relações entre o prazer e o bem. Infelizmente, ela não consegue estabelecer uma mínima distância crítica em relação ao seu conhecimento atual, não sabe como buscar mais informações sobre o mundo real e tampouco tem como orientar a busca potencial daquelas informações. Silmara se restringe ao sensorial, não sabe o que se deve buscar para ser feliz e muito menos consegue escolher os meios adequados para atingir os fins desejados. A sua família é problemática: ela mora sozinha com o pai – um ex-presidiário - e sustenta a casa; o irmão é um travesti que fugiu de casa e odeia a figura paterna. Silmara vive feliz com o reconhecimento das colegas. Nos fins de semana, todas freqüentam um clube do bairro, o Alvorada.

Numa noite de sábado, Silmara encontra o cantor Bruno (Cauã Reymond), da banda “Bruno e os seus Andrés”. Para inveja das colegas, passa um longo fim de semana com ele no Guarujá, correndo o risco de ser despedida da fábrica. Mas para Bruno, ela é apenas uma fã pobre e bonita. Silmara conhece ainda um outro cantor, um certo Luis Ronaldo (Maurício Mattar), que a convida para um fim de semana numa fazenda, criando uma atmosfera de Cinderela para seduzi-la.

O espectador logo verá que a heroína é uma pessoa de caráter, apesar de confusa. Com toda essa reviravolta em sua vida, Silmara aprenderá, em pouco tempo, a lição socrática de que o prazer e a dor são as duas faces de uma mesma moeda. Considerar apenas o sentimento, o interesse ou o desejo como os critérios últimos da busca pela felicidade representa arriscar tudo em troca do efêmero. É como se a citação socrática inicial viesse, ao fim, a adquirir o seu pleno sentido: “conhece-te a ti mesmo!”

Filme: Falsa Loura
Diretor: Carlos Reichenbach
Elenco: Rosanne Mulholand, Djin Sganzerla, Cauã Reymond e Leo Áquila.
Brasil 2008. Em exibição no cine Rosa e Silva 3.

 
Comentar Imprimir
 
12 de Agosto de 2008 | 17:05 | Alexandre Costa
Partículas elementares ou a felicidade por um triz

Eis um filme para se gostar muito ou se odiar. Baseado no livro homônimo do radical e anárquico escritor francês Michel Houellebecq, autor também de “Plataforma” e de “A Possibilidade de uma Ilha”, esse filme alemão retrata uma tragédia pós-moderna. Narra a história de dois meio-irmãos, Bruno e Michael, que só se conheceram quando adolescentes. A mãe de ambos era uma hippie deslumbrada com a liberdade sexual e obcecada em permanecer jovem. O pai de Bruno era um cirurgião plástico alcoólatra e não se sabe quem era o pai de Michael.

Adultos, Bruno tornou-se professor de literatura num colégio e Michael,virou um gênio da matemática empenhado em descobrir um algoritmo para a clonagem de qualquer ser vivo. Sua pesquisa pretendia decretar o fim da reprodução sexuada, vista como fonte eterna de frustrações, conflitos e sofrimentos. O próprio Michael é profundamente reprimido e sempre evitou o sexo.

O seu irmão Bruno é o oposto. Insaciável sexualmente, mas temeroso de tornar-se impotente, assedia as jovens alunas, é abandonado pela mulher, que leva consigo o filho do casal. Ele freqüenta bordéis, bebe e escreve panfletos racistas. Algumas vezes é internado numa clínica de repouso, onde lhe dão remédios. Finalmente, inicia uma terapia com uma médica. A ela, Bruno narra a infância infeliz, criado pela avó e depois levado para um colégio interno, onde era humilhado e seviciado.

Bem, a Alemanha é a terra do comércio do sexo sob todas as formas e Bruno resolve visitar um clube de sexo tântrico. Lá, após cômicas tentativas frustradas de achar uma parceira, ele descobre Christiane (Martina Gedeck) e se apaixona. Ambos se entregam aos excessos sexuais, freqüentam casas de swing e de sadomasoquismo. Tudo caminha no terreno pantanoso tão condenado pelos gregos, o da hýbris, o oposto da justa medida, o avesso da virtude. Álcool, sexo compulsivo e drogas conduzem ao fim trágico.

E Michael, desde criança, conhece Anabelle (Franka Potente), cresceram juntos, mas nunca chegaram a namorar, apesar da garota é louca por ele, sempre esquivo ao contato. Até que um belo dia, anos depois, reencontram-se e começam um romance. Ele já um talento científico reconhecido e vai para a Irlanda, continuar as suas pesquisas.

Tudo parece estar dando certo para os dois irmãos e a felicidade parece próxima, quando algo dá errado. Os personagens de Houellebecq sempre sofrem dessa busca assintótica  pela vida boa. Quanto mais próximos dela, mais inatingível. Bastaria estender a mão para pegá-la, mas ela escapa. Isso é o que significa estar por um triz do bem viver! Por isso, o drama dos irmãos seria pós-moderno na medida em que tudo se desmancha no ar, de que não há hierarquia estável de valores e toda escolha ética implica uma enorme insegurança.

A filosofia construtivista mostra que o sentido ou o sem sentido das ações está determinado sempre pelo contexto da interação na qual elas se produzem – e, a partir da perspectiva interior do sujeito, isto só pode ser apreendido de modo limitado.. Spencer Brown, lógico de Oxford, mostrou que construir a realidade implica a realização de distinções e que será sempre o observador quem determina quais diferenças fazem a diferença para ele.

Ora, na maneira como alguém descreve um problema já está contida uma idéia de como solucioná-lo. O problema tornar-se-á crônico se alguém continuar utilizando equivocadamente as estratégias de solução provadas sem êxito e que fracassaram justamente porque foram feitas distinções errôneas, isto é, inúteis. Nesse sentido, Bruno e Michael bem que tentaram soluções novas para os seus problemas. O filme capta o cinismo, o niilismo e a iconoclastia da literatura de Houellebecq, e não é uma obra para puritanos ou hipócritas.
Partículas Elementares (Elementarteilchen)
Diretor: Oskar Roehler
Elenco: Moritz Bleibetreu, Christian Ulmen,  Franka Potente e Martina Gedeck
Alemanha, 2006. Sessão de Arte do Tacaruna

 
Comentar Imprimir
 

 
 
Alexandre Costa
Este Blog traz a relação entre o que é produzido pelo cinema e o que é discutido em filosofia. Dicas, críticas e uma análise geral da sétima arte você encontra aqui.
(www.asces.edu.br/cinemaefilosofia)
Seções
Seções Página inicial
Seções Críticas ( 47 )
Seções Dicas ( 11 )
Seções Filme indicado ( 2 )
Seções Geral ( 4 )
 
 
 
 
 
Asces-Unita
Associação Caruaruense de Ensino Superior e Técnico (Mantenedora)
Av. Portugal, 584, Bairro Universitário- Caruaru - PE – Brasil
E-mail:  asces@asces.edu.br
Central Telefônica: +55 (81) 2103.2000