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Faculdade Asces

12 de Maio de 2008 | 21:00 | Alexandre Costa
A isca ou a moral da indiferença

A crise ideológica, política e existencial pós-moderna abalou radicalmente os sentimentos morais. As pessoas são indiferentes ao outro, centram-se em si mesmas e buscam apenas as vantagens próprias (muitas vezes, indevidas). Mas uma filosofia séria deveria encontrar a resposta moralmente capaz de medir mudanças no bem-estar humano, a partir da tese de que as regras morais devem ser testadas no que diz respeito às suas conseqüências. O utilitarismo, criado por Bentham e Mill, tentou desempenhar esse papel, apontando o prazer e a dor como os critérios últimos da conduta moral.

Como seres moralmente equilibrados, queremos ter as coisas que valem a pena e nossas atuais preferências refletem nossas crenças atuais sobre o que são essas coisas que valem a pena. O filósofo canadense Will Kymlicka afirma que as nossas preferências são previsões a respeito do nosso bem e que elas, portanto, não definem o nosso bem. Devo, na verdade, buscar um bem praticável, como diz Aristóteles, ao satisfazer as preferências que não se baseiam em crenças equivocadas.



O filme de Bertrand Tavernier ilustra bem esse dilema: três jovens parisienses dividem um apartamento num bairro distante e sonham em ficar ricos na América, criando uma cadeia de lojas de roupa. Nathalie (Marie Gillain) trabalha numa boutique e namora Eric (Olivier Sitruk), filho de uma família rica e dependente de mesada.  Bruno (Bruno Dutzulu) é o terceiro e acompanha Eric em tudo.

Acontece que Nathalie freqüenta uma casa noturna cheia de ricaços que se interessam por ela e convidam-na para sair. A sua agenda é cheia de nomes e, então, para obter dinheiro, os três passam a assaltar os clientes da casa, usando a garota como isca. O método é marcar um jantar com a suposta vítima, de quem acreditam que roubarão milhares de franco, jóias e quadros raros. Bem, algo começa a dar errado, embora a indiferença moral do trio deixe-os cegos para os perigos.

O interessante do filme é a exibição de frieza dos personagens, preocupados em possuir canetas Mont Blanc e relógios Cartier, enquanto usam de violência enorme contra as vítimas. Beber champanhe com caviar, ou espancar ou matar seriam atitudes de igual valor. Os personagens mantêm crenças equivocadas sobre o capitalismo, consideram os outros apenas meios para obter lucro e ignoram as convenções morais da comunidade. Na verdade, nenhum deles possui formação intelectual que lhe permita desprezar as convenções a partir de convicções sólidas.

Agem com a indiferença de um robô diante do seu operador e, em nenhum momento, calculam a extensão do mal que praticam e as conseqüências que poderão recair sobre eles. Agir sem medir os efeitos do que se faz e suspender o respeito pelo outro implica ignorar que os interesses de cada membro da comunidade têm importância e importância igual. O filme ensina que satisfazer preferências nem sempre contribui para o nosso bem-estar. Refletir sobre as preferências é fundamental, na medida em que o que é, de fato, bom para nós, pode ser diferente das preferências que temos agora.
DVD Fortemente recomendado.
Filme: A Isca (L’Appât)
Diretor: Bertrand Tavernier
Elenco: Marie Gillian, Olivier Sitruk e Bruno Dutzulu
França, 2007.

 
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30 de Abril de 2008 | 16:28 | Alexandre Costa
Medo da Verdade: um Dilema Moral Inesperado

Filme muito bom, baseado no livro de Denis Lehane, autor da história do excelente filme “Sobre Meninos e Lobos”, dirigido por Clint Eastwood. O filme se passa num bairro pobre de Boston e mostra o suposto seqüestro de uma garota de quatro anos, filha de uma mãe alcoólatra e drogada. Além da polícia, um casal de detetives particulares, também morador do bairro, passa a investigar o caso.

A polícia aponta Cheese, um traficante negro haitiano, como o seqüestrador da garota. Os detetives particulares, dada a familiaridade com a vizinhança, descobrem o tráfico de drogas, a corrupção policial e a miséria existencial que cerca o caso. Amy Harris, no papel da mãe drogada, foi indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro. Ela desempenha o papel de uma pessoa desorientada e escravizada pelo vício, incapaz de governar sua própria vida e de educar a garota.

O ator Ben Affleck dirige a obra e consegue imprimir um clima sombrio ao filme. Seu irmão, Casey Affleck, faz o detetive particular auxiliado pela namorada, a belíssima Michelle Monaghan. Morgan Freeman é o chefe de polícia aposentado e Ed Harris faz um detetive durão.

Ao final, um dilema moral profundo apresenta-se ao detetive particular, após desvendar os segredos por trás do seqüestro. Você certamente será tocado pelo filme, dada a maneira direta e sincera com que encara a fragilidade humana. Fortemente recomendado.
Filme: Medo da Verdade (Gone, Baby, Gone)
Diretor: Bem Affleck
Elenco: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Ed Harris, Amy Harris e Morgan Freeman
EUA, 2007.  DVD Disney

 
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16 de Abril de 2008 | 13:24 | Alexandre Costa
dicas de dvds

Frenesi (Frenzy)


Ninguém menos que Alfred Hitchcock é o diretor desse ótimo filme. O genial diretor inglês dispensa apresentações e a obra, de 1972, marca o retorno do mestre em grande estilo. Numa Londres calma e civilizada, no Covent Garden, exatamente ao lado do símbolo máximo da sofisticação britânica, a Royal Opera House, um assassino sádico estupra e mata mulheres usando uma gravata.

Seus corpos são depois encontrados na rua e até no Tamisa, durante uma inauguração da Prefeitura, um corpo nu de mulher é descoberto (a primeira tomada do filme mostra Londres e o seu rio desde cima e vai ironicamente descendo até mostrar um burocrata discursando às margens do rio e, em seguida, gritos de terror diante do cadáver que bóia, interrompendo a cerimônia).

Ora, um inocente termina sendo acusado e a trama revela os seus esforços para livrar-se e revelar o culpado. O tema do sujeito vítima das circunstâncias é caro para Hitchcock e ele usa todo o seu talento para manter o espectador tenso, apesar de já se saber quem é o assassino. Como desmascará-lo? E porque as provas contra um inocente também não podem ser usadas a seu favor? Só o grande e gordo diretor inglês fazia filmes assim! Alugue logo!
Filme: Frenesi (Frenzy)
Diretor: Alfred Hitchcock
Elenco: John Finch, Barry Foster e Barbara Leigh-Hunt.
EUA, 1972. Em DVD

O Dia do Chacal (The Day of the Jackal)


Grande filme de Fred Zinnemann (Matar ou Morrer) e pelo amor de Deus, não confunda essa obra-prima com uma porcaria homônima recente estrelada por Bruce Willis, essa sim pura bullshit. Baseado no livro de Forsyth, a história gira em torno de uma tentativa de assassinato de Charles de Gaulle, presidente francês, herói da Segunda Guerra e responsável pela saída francesa da Argélia. Radicais de direita viram isso como traição e contrataram um assassino inglês para matar o presidente.

Edward Fox é o criminoso sofisticado e frio que planeja cuidadosamente atirar em de Gaulle durante uma cerimônia pública em Paris. O plano é descoberto e os esforços das polícias inglesa e francesa é evitar que o criminoso cruze a fronteira e cumpra o acertado com os direitistas.

Aí começa uma incrível perseguição de gato e de rato pelas belas paisagens francesas, com o Chacal disfarçado de playboy, usando um conversível Alfa-Romeo, usando variados disfarces e enganando a polícia. Esconde-se em hotéis, com um policial francês obstinado em prendê-lo. Grande suspense. Não dá tempo nem de beber água durante o filme. Ótimo!
Filme: O Dia do Chacal (The Day of the Jackal)
Diretor: Fred Zinnemann
Elenco: Edward Fox, Alan Badel e Tony Britton
EUA, 1973.

 
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16 de Abril de 2008 | 13:14 | Alexandre Costa
dicas de dvds

O Sobrevivente (Rescue Dawn)


Um bom filme do diretor alemão Werner Herzog (Nosferatu, O Enigma da Kaspar Hause) baseado na história real de um piloto da marinha americana que cai no Laos durante uma missão de bombardeio na Guerra do Vietnã. Feito prisioneiro de guerra em condições sub-humanas, Dieter (Christian Bale) organiza um plano de fuga com os demais prisioneiros e mete-se na selva asiática. Herzog é um consagrado diretor de filmes de arte e conseguiu, com o seu enorme talento, narrar uma história sobre a conduta humana levada aos limites, sobre a persistência e o instinto de sobrevivência. Enfim, acima de qualquer influência ideológica, a obra de Herzog é bem conduzida, a fotografia é ótima e complementa-se com uma música eletrizante. Alugue logo!
Filme: O Sobrevivente (Rescue Dawn)
Diretor: Werner Herzog
Elenco: Christian Bale e Zach Grenier
EUA, 2006. DVD Califórnia

Adeus, meninos (Au revoir, les enfants)


Ótimo filme, ganhador do Leão de Ouro em Veneza e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, e que narra a história de um menino rico num internato na França ocupada pelos nazistas. A obra de Malle é autobiográfica, narrando as impressões que a prisão de um garoto judeu até então escondido pelos padres no próprio internato. Delicado e inteligente, o filme mostra as relações humanas sob pressão insuportável e desenha um perfil de dignidade que só as situações-limite costumam ensejar. Vale a pena ver!
Filme: Adeus meninos (Au revoir, les enfants)
Diretor: Louis Malle
Elenco: Aspan Manesse, Raphael Feejto e Francine Racafte
França, 1987. Em DVD Silver Screen

 
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09 de Abril de 2008 | 19:43 | Alexandre Costa
O passado: a repetição como farsa

Eis um belo filme, sereno e profundo como se inspirado na doutrina estóica. Dirigida pelo cineasta argentino Hector Babenco (“O beijo da mulher-aranha” e “Pixote”) e baseada no livro do autor argentino Alan Pauls, a obra retrata a história de um casal, Rimini (Gael García Bernal) e Sofia.(Anália Couceyro). Ele trabalha como tradutor e não tem renda fixa.

Vivem juntos há doze anos, não têm filhos e são um modelo de felicidade para a família e para os amigos. No entanto, estão prestes a se separar. Como um casal civilizado moderno, combinam tudo com objetividade e discrição e a notícia surpreende a todos. Alugam novos espaços, dividem os pertences, exceto as fotografias, as quais adquirirão um valor simbólico. Cada um continua a sua vida, até que Rimini se envolve com Vera (Mor Anghileri), uma bela modelo. Sofia começa a ter ciúmes e volta a procurar o ex-marido.

Acontece que a nova namorada surpreende Sofia tentando beijar Rimini na saída de uma palestra e interpreta mal o caso. Na verdade, Rimini rejeita a iniciativa da ex-mulher, mas Vera desespera-se ao ver a cena e é atropelada por um ônibus ao fugir. Será o primeiro grande mal-entendido fatal no filme.

Pobre Rimini, abatido por irreparáveis perdas sucessivas, a ponto de esquecer as línguas que traduzia tão bem e não poder mais trabalhar. Leva algum tempo para ele se recuperar e então conhece Carmen (Ana Celentano) uma tradutora como ele, com quem se envolve também. Ambos passam a fazer traduções de palestras e até Paulo Autran aparece como um professor de lingüística francês desastrado que atormenta a sua platéia com um bocado de sandices.

Rimini sempre dá a impressão de ser alguém a quem a vida conduz ao acaso, como se suas ações submergissem no confronto com as ações das demais pessoas. Parece viver aturdido e, apesar do poder de sedução sobre as mulheres, não passa de um joguete diante delas.

O novo amor tudo parece tê-lo curado e o casal tem um filho. Estão felizes, mas Sophia se intromete na vida do novo casal, com conseqüências terríveis. Hannah Arendt, ao falar da condição humana, disse que a ação é tão imprevisível quanto irreversível e que qualquer iniciativa humana será sempre ameaçada pela hybris, a desmedida que pune a imprudência. Assim, movida pela inveja e pelo ressentimento, Sophia planeja uma vingança muito bem elaborada, com o propósito de restabelecer as coisas como eram antes,  o que gera outros mal-entendidos fatais

Arendt também afirma que cada vida humana deve poder originar uma biografia, com um significado único, com um início e um fim e pela qual cada um é responsável. Rimini é covarde que não assume a própria vida. Sophia, por sua vez, ignora que a imprevisibilidade da ação não depende apenas da impossibilidade de predizer as conseqüências, mas, sobretudo, porque o seu sentido só se revela no fim do processo, e não aos protagonistas, mas ao espectador, ao historiador, ao artista.

Por isso, o filme é excelente. A extraordinária beleza do filme revela-se plenamente ao final, quando os inúteis esforços dos personagens conduzem, por uma lado, à ruína e, por outro, a uma paradoxal compreensão da fragilidade humana. Babenco consegue manter o interesse até o fim, com uma trama densa e complexa, da qual o inesperado é parte essencial e onde a profundidade do tema remete à reflexão. A própria Sophia, cuja imprudência causou enormes estragos, vê-se diante de uma lição única: a de que o passado só se repete como farsa!
Filme: O Passado (El Pasado)
Diretor: Hector Babenco
Elenco: Gael García Bernal, Anália Couceyro, Mariana Anghileri e Ana Celentano
Argentina, 2007. Em DVD Warner

 
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Alexandre Costa
Este Blog traz a relação entre o que é produzido pelo cinema e o que é discutido em filosofia. Dicas, críticas e uma análise geral da sétima arte você encontra aqui.
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