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07 de Abril de 2008 | 14:32 | Alexandre Costa
O Preço da Coragem ou o Conflito das Lógicas

A importância do jornalismo nas sociedades contemporâneas é inegável e a globalização depende fundamentalmente da informação instantânea que pretende nos tornar cidadãos do mundo. Ou, pelo menos, é essa a crença de muita gente que viveno capitalismo. Os próprios jornalistas também nutrem tal ideário, a ponto de se considerarem imunes à violência que grassa no planeta. Talvez creiam que mostrar a “verdade” seja um salvo-conduto no universo fanatizado de hoje. E, embora muitos leitores de jornal acreditem ser esse o caso, a intolerância no mundo real desmente esse otimismo.

Daniel Pearl, correspondente do “The Wall Street Journal”, seqüestrado e assassinado no Paquistão em 2002, foi mais uma vítima dessa presunção, como mostra o filme lançado em DVD do diretor inglês Michael Winterbottom (“9 Canções”e “O Caminho para Guantánamo”). Formado em Stanford, Pearl (Dan Futterman) era honesto e imparcial, reportando os fatos diretamente do tiroteio: esteve na guerra do Afeganistão depois do 11/09 e, na época do seqüestro, trabalhava no Paquistão. Antes de retornar à América, ainda pretendia fazer uma entrevista com o chefe de uma facção terrorista em Karachi.

Certamente confiando na seriedade das reportagens que fazia para o WSJ, Pearl contactou extremistas e marcou um encontro com um certo sheik Gilani. Foi, na verdade, atraído para uma armadilha montada por jihadistas. O seu desaparecimento causou comoção e a sua mulher, a jornalista francesa Marianne Pearl (Angelina Jolie), exigiu buscas imediatas. A polícia paquistanesa passou a investigar, com o auxílio do FBI e, durante alguns dias, houve a esperança de que fosse solto. Bem, acho que o filme de Winterbottom é competente na narração dos fatos, embora não tenha a profundidade política de um filme de Costa-Gravas.

O mais importante, porém, é o conflito das lógicas subjacente ao drama de Pearl: o repórter do jornal da elite do capitalismo e veículo porta-voz da globalização financeira buscando dialogar com extremistas, como se estivesse num seminário de filosofia e pudesse trocar idéias de modo sistemático e imparcial. Ou, pelo menos, como se pudesse ouvir as opiniões de Gilani e apresentá-las, de forma lúcida, aos seus leitores, realizando a finalidade do jornalismo!

Nietzsche quando escreveu, em “Humano Demasiado Humano”, que um crente tem de ter razão e que não pode ser refutado, quis mostrar que não é o combate às opiniões, mas o combate das crenças nas opiniões que sempre tornou a história tão violenta. O fanático calunia a razão e persegue todos os hereges. O erro fatal de Pearl foi subestimar o embotamento mental dos extremistas, minimizar a idiotia intrínseca das mentes fanáticas e, acima de tudo, acreditar que suas credenciais (jornalista norte-americano ilustrado e viajado, novaiorquino da elite, lido por ricaços e por políticos poderosos no mundo todo) seriam um cartão de apresentação eficaz, um “abre-te sésamo” que faria lunáticos revelarem os segredos da sua luta armada.

Pearl não compreendeu que o WSJ e a CIA parecem ser uma e a mesmo coisa para os povos vítimas do imperialismo de Bush e que o capitalismo não tem qualquer face humana para quem passa fome em Karachi ou em Ruanda. Ademais, os jihadistas não acreditavam entusiasticamente que notícias imparciais escritas por jornalistas competentes amoleceriam os corações capitalistas e minorariam a miséria das massas do Terceiro Mundo.

Por isso, o destino de Pearl já estava selado! Afinal, boa parte do jornalismo contemporâneo, principalmente o televisivo, toma como verdade tudo o que é apenas provável, elege o verossímil como indubitável e, pior ainda no caso das revistas da extrema-direita brasileira como a Veja, baixam cinicamente o nível da imagem de pessoas reais para extrair vantagens dessa operação. Daí o descrédito da imprensa. Os extremistas, fartos dos lugares-comuns do liberalismo ocidental, resolveram fazer de Pearl o bode expiatório.

Quando o casal Brad Pitt e Angelina Jolie comprou os direitos do livro de Marianne Pearl, sem dúvida acreditava poder fazer um filme-denúncia da intolerância e apresentar uma versão diferente dos fatos. Ambos esqueceram que eles mesmos, enquanto casal hollywodiano, são mais um ícone ideológico globalizado, tão capitalista quanto a Nike ou a Coca-Cola. Longe de mim reprová-los! Tampouco pretendo criticar a ética de Pearl! Embora fraco, o filme não merecia ser o fracasso de bilheteria que, de fato, foi nos Estados Unidos.

Isso prova, em última análise, que as massas americanas comedoras de hambúrgueres cultivam a ignorância e, confrontadas com visões diferentes, preferem a versão oficial do Departamento de Estado. O filme, sendo politicamente correto, permanece superficial e previsível, o que nos leva a extrair uma mensagem: com o estado de coisas permanecendo o mesmo, a miséria do mundo não mudará, quaisquer que sejam as informações verídicas obtidas através de atos de coragem temerária.

Filme: O Preço da Coragem (Mighty Heart)
Diretor: Michael Winterbottom
Elenco: Angelina Jolie, Dan Futterman e Archie Panjabie
EUA, 2007. Em dvd Paramount

 
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26 de Março de 2008 | 15:14 | Alexandre Costa
dicas de dvds

Nessa nova seção do blog, eu gostaria de dar dicas de bons filmes em DVD:



Transamérica – um filme muito divertido sobre Bree, um travesti que deseja fazer uma operação de mudança de sexo. Mas, às vésperas da cirurgia, ele descobre que tem um filho de dezessete anos, fruto de um relacionamento heterossexual no passado. Toby, o garoto é problemático e está preso por tráfico de drogas e prostituição. O pai transexual viaja até Nova York para libertá-lo e voltar a Los Angeles. Na viagem de retorno, acontecem casos engraçados, inclusive a reação da família à estranha condição sexual de Bree.

A atriz Felicity Huffman interpreta o travesti, papel que deveria ter lhe dado o Oscar. O filme não adota fórmulas politicamente corretas, não tem clichês e nem procura despertar compaixão pelo personagem. Apenas mostra as diversas contradições na conduta de quem nasceu com um sexo, mas gostaria de ser de outro.
Filme: Transamérica (Transamerica)
Direção: Duncan Tucker
Elenco: Felicity Huffman, Kevin Segars
EUA, 2007.

 

Pacto de Sangue (Double Indemnity)
Outro grande filme de Billy Wilder, o mesmo diretor de “Crepúsculo dos Deuses”. Ele agora filma o livro de James Cain sobre uma mulher fatal (Stanwick) que seduz um agente de seguros (MacMurray) e o convence a ajudá-la a matar o marido e a receber a dupla indenização a que tem direito, em caso de acidente.
Ambos tramam uma cena de morte que pareça acidental, mas Edward G. Robinson, investigador da seguradora e chefe de MacMurray, desconfia de algo e investiga a fundo a questão. O filme, um clássico dos filmes noir, é amoral, amargo e mostra como a ganância pode enriquecer ou arruinar as pessoas. Bela obra, fortemente recomendável.
Direção: Billy Wilder
Elenco: Bárbara Stanwick, Edward G. Robinson e Fred MacMurray.
EUA 1944.
Em DVD da Versátil.

 

O Buda (Un Buda)
Um bom filme argentino sobre dois meninos cujos pais eram ativistas políticos (e budistas), mortos pela ditadura militar. Quando adultos, assumem caminhos opostos: um dos garotos torna-se professor de filosofia (vivido pelo próprio diretor Rafael Rafecas) e o outro fica perdido, sem saber como viver o seu misticismo, até encontrar um templo nas montanhas. A partir daí, a sua vida modifica-se e ele encontra um canal adequado para exprimir o seu desejo do transcendente.

A música é muito bonita e delicada, o tratamento dado ao tema é inteligente e criativo e, acima de tudo, o diretor sabe do que está falando. Bem humorado, o filme consegue nos ensinar algo sem apelar para clichês e o seu final é original e emocionante. Vai bem o cinema argentino produzindo obras como essa. Alugue e assista!
Filme: O Buda
Diretor: Rafael Rafecas
Elenco: Rafael Rafecas, Agustín Markert, Julieta Cardinali
Argentina, 2005
Em DVD Paris Filmes

 
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26 de Março de 2008 | 15:10 | Alexandre Costa
Ponto de Vista: as várias visões do mesmo

O filme promete porque apresenta uma história interessante,a saber, um plano para assassinar o presidente americano Ashton (Hurt), em visita à cidade espanhola de Salamanca. Vários líderes estarão presentes a uma reunião anti-terrorismo e a segurança é fortíssima. A despeito disso, Ashton é atingido ao discursar numa praça pública e os agentes do serviço secreto têm que descobrir os criminosos.

Bem, a obra descreve o crime sob vários ângulos: o da equipe de tv ianque que filmou involuntariamente o atentado, o do agente Barnes (Quaid), o do próprio presidente e até o de um inocente turista americano (Whitaker) que usava sua câmera amadora para registrar o evento. A cidade histórica espanhola, após o crime, vira um caos, todos correm pelas ruas, a histeria é geral e, nesse ponto, o filme é convincente. Acontecem perseguições de carros pelas vielas de Salamanca, a história tem reviravoltas e guarda surpresas.

O roteirista Barry Levy resolveu repetir a cena do atentado várias vezes, como se fossem hipóteses esclarecedoras do ocorrido, mas nada acontece. Isso talvez canse alguns espectadores. Por trás da trama, na verdade, está a onipresente infalibilidade americana e a quase incolumidade do presidente. Notável também o culto à figura do primeiro mandatário (parece que os americanos apenas substituíram o monarca britânico por um monarca plebeu eleito).

Se o filme prometia, no início, decepciona no fim porque a trama, que começou criativa, mergulha no clichê, certamente para agradar a maioria dos espectadores. O diretor certamente pensou que finais muito originais ou inesperados talvez afugentassem o público, sempre acostumado a desfechos com a vitória completa do sistema. Afinal, o cinema é uma indústria que deve dar lucro e o filme custou 30 milhões de dólares.E “Ponto de Vista” arrecadou 24 milhões de dólares no fim de semana de estréia nos Estados Unidos!

Coerentemente com a ideologia Bush, os terroristas retratados são figuras obscuras, indefinidas e um policial espanhol parece estar envolvido no delito. Investiga-se até se uma traição interna do lado americano teria ocorrido (talvez a única hipótese para explicar a falha do serviço secreto). De toda forma, após o 11/09, a nação do fast-food anda muito traumatizada e nada como uma mãozinha de Hollywood para aliviar as dores. Ao cabo, se você gosta de ação, assista ao filme nos cinemas do Recife ou espere pelo lançamento em DVD.
Filme: Ponto de Vista (Vantage Point)
Diretor: Peter Travis
Elenco: William Hurt, Forest Whitaker, Mathew Fox, Dennis Quaid e Sigourney Weaver
EUA 2007

 
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18 de Março de 2008 | 21:36 | Alexandre Costa
Valente: um passeio pela vingança

O Direito orgulha-se de substituir a vingança privada pela aplicação da punição prevista na norma. As partes renunciariam à violência e aceitariam a mediação de um terceiro, o juiz, um funcionário estatal habilitado a julgar imparcialmente conflitos. Isso é uma espécie de lugar-comum do pensamento político civilizado. Mas às vezes o ser humano, pressionado pela violência e julgando-se desprotegido ou intensamente prejudicado pela ação alheia, resolve apelar para os seus próprios meios privados para resolver as questões que o perturbam.



É o que mostra o filme Valente, do diretor irlandês Neil Jordan. Narra-se ali a história de Erica Bain (Jodie Foster), apresentadora de rádio em Nova York com um programa sobre como passear e descobrir a cidade, feliz com um namorado que a ama e com quem pretende casar. Um belo dia, o casal vai passear no Central Park e é abordado por uma gangue violenta que espanca o homem até a morte e deixa Erica em coma. Semanas depois, ao recobrar a consciência, ela sofre trauma ainda maior, ao saber da morte do companheiro. Atormentada e inconformada, e ainda recuperando-se do episódio, ela compra uma pistola ilegalmente e torna-se uma justiceira da metrópole. O tema é banal, mas o diretor Jordan é excelente e consegue abordar o tema de um ponto de vista original, ressaltando a dimensão da culpa que perpassa alguém que sabe ter cometido um ato ilícito.

Por acaso, Erica surpreende dois assaltantes no metrô e fuzila-os simplesmente. Elimina ainda um chefão da Máfia e um sujeito que acabara de matar a ex-esposa. A cada ato de violência, Erica fica mais perturbada e sente-se uma estranha, cometendo atos que considerava impensáveis. A trama complica-se quando Erica aproxima-se de Mercer (Terence Howard), um policial investigando os crimes que ela cometeu.

Através de uma investigação bem feita, ouvindo testemunhas e comparando dados, Mercer começa a desconfiar de Erica e vê-se diante de um dilema moral: fazer valer o Direito e prender a apresentadora de rádio, caso prove ser ela a criminosa, ou então ceder aos ditames da justiça privada e deixá-la em liberdade, sem as acusações formais previstas em lei. O peso do filme está nessa questão: um ser humano pode passar dos limites de conduta aceitável quando submetido a circunstâncias extremas? Seria um hipócrita quem afirmasse substituir os seus próprios impulsos de vingança pela confiança civilizada na lei? Qualquer um de nós poderia protagonizar aquele drama?

Vale a pena assistir ao filme. Ele é bem feito, tem uma boa estrutura narrativa e consegue criar um clima competente de suspense. O final escapa ao clichê e admite uma redenção, ao cabo de uma intensa via-crucis.
Filme: Valente (The brave one)
Diretor: Neil Jordan
Elenco: Jodie Foster e Terence Howard
EUA, 2007
Em DVD

 
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04 de Março de 2008 | 23:34 | Alexandre Costa
Onde os fracos não têm vez: o conto do assassino com princípios

Logo no início do filme, Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra, no meio do deserto americano, várias picapes cercadas por homens mortos. Um dos defuntos protege uma maleta com dois milhões de dólares. Moss pega a grana e resolve escondê-la. Está pronta a trama do filme, uma história já filmada milhões de vezes. Mas Joel e Ethan Cohen são geniais e conseguiram fazer um grande filme usando, de forma criativa, um material banal.

Já se sabe, os donos do dinheiro vão atrás da grana e começa uma escalada de violência. Moss se esconde e o pistoleiro Antonio Chigur (Javier Bardem, Oscar de coadjuvante pelo papel) assume a missão de matá-lo e recuperar o dinheiro. Psicopata convicto, usando um corte de cabelo estranho e que lhe dá um ar aterrador, Chigur utiliza ora um apetrecho para matar gado no matadouro (uma boa metáfora para a condição humana), ora rifles poderosos. Tem um ar inocente e usa moedas para decidir quem morrerá. Pode ser louco, mas age segundo rígidos princípios morais.

Uma antinomia? Não no cinema dos Cohen! Personagens bizarros como o de Woody Harrelson, um segundo assassino contratado para eliminar Chigur e suas perigosas atitudes temperamentais, fazem do morticínio uma atividade de lazer. Aí aparece outro personagem forte, o xerife Bell (Tommy Lee Jones), um velho policial com o rosto marcado pelo sol do deserto e pela descrença no ser humano. Encarregado de desvendar os crimes, Bell espanta-se com a violência gratuita de Chigur e faz boas reflexões sobre a falta de sentido das coisas.

Atravessa-se a fronteira do México, mais gente morre e assim vai o sangrento dinheiro deixando mais vítimas. Os gêneros do cinema se fundem no filme: faroeste, drama, suspense. O filme ganhou muitos prêmios: o melhor filme do Sindicato dos Atores Americanos, o Oscar de melhor filme, de melhor direção, de melhor roteiro adaptado e, finalmente, o de melhor ator coadjuvante para Bardem. Bem merecidos! Uma película nada convencional e com um final surpreendente. Quem ficou com o dinheiro? Não vou contar!  Mas um diálogo de Bell define o filme: ao explicar à esposa de Moss, aflita por saber o paradeiro do marido, que não é possível protegê-lo, dada a ferocidade dos seus perseguidores, Bell narra a seguinte história:

Um habitante de sua cidade tentou matar um boi no matadouro, furando-lhe o pescoço com um arpão. O boi resistiu e o cowboy resolveu matá-lo a tiros. Ao disparar a arma, a bala ricocheteou e feriu o seu braço, deixando o sujeito aleijado. Bell conclui com um ar sarcástico: “Nem na luta entre o homem e o gado é possível prever-se o desfecho!”. É esse o espírito do filme!

Filme: Onde os fracos não têm vez! (No country for old men)
Diretores: Ethan e Joel Cohen
Com: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin e Woody Harrelson
EUA, 2007

 
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Alexandre Costa
Este Blog traz a relação entre o que é produzido pelo cinema e o que é discutido em filosofia. Dicas, críticas e uma análise geral da sétima arte você encontra aqui.
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