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Faculdade Asces

07/07/2014

" É preciso formar cidadãos conscientes desse papel de corresponsabilidade de todos por todos"

Em entrevista, Dr. Marconi Aurélio aborda a Fraternidade como princípio transformador da realidade

A realidade social atual tem sido muito discutida no que diz respeito ao esquecimento de valores humanos. A proposta de movimentos como o dos Focolares e, recentemente, da Cátedra Chiara Lubich, sugere a inserção da Fraternidade nas práticas do cotidiano. O Cientista Político Marconi Aurélio fala sobre o assunto, defendendo que este faça parte de debates na academia e na política. O professor aborda ainda a iniciativa da Escola Civitas, que promove cursos de formação cidadã e humanística, indicando a programação para o início de novas turmas.

Como a fraternidade pode passar de um valor debatido na academia para uma prática transformadora da sociedade atual?

Alguns autores têm debatido o paradigma da fraternidade no âmbito da ética. Outros, do ponto de vista teórico ou da história das ideias. Na prática, é importante destacar que a fraternidade no âmbito da política coloca em xeque exatamente o caráter conflitual e competitivo dos regimes democráticos, pressupondo a inclusão de todas as vertentes ideológicas, forças políticas etc. em função não da sobreposição do bem de alguns (ainda que maiorias simples) em detrimento do dos demais, mas em função do bem comum a todos, sobretudo aos mais desfavorecidos. Para concretizar esse paradigma, obviamente, é preciso que a representação política seja legítima e efetiva, mas que também cada um, povo e governo, oposição e situação, assuma seu papel e corresponsabilidade de uns pelos demais. 

Tomando como base uma contextualização histórica, a que você atribui o fato da fraternidade ser “o princípio esquecido” entre aqueles propostos na Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade)?

É importante notar que as revoluções da Modernidade, que deram vida ao projeto de Estado-Nação, foram simultâneas a mudanças econômicas e culturais, como o advento do mercantilismo e da cultura liberal e igualitária. Sendo assim, a ideia de fraternidade política quase que se tornou um "supérfluo", dadas as dificílimas condições de materialização da igualdade e da liberdade no contexto das lutas democráticas dos séculos XIX e XX. 
Além do mais, ainda hoje, foi vinculada a valores maçônicos ou religiosos, esvaziando sua dimensão civil e laica. À medida em que se experimentam em diferentes partes do mundo, lapsos temporários desses ideais no cotidiano da vida coletiva, surgem outras demandas que são viáveis apenas a partir de uma nova dimensão de co-existência política entre diferenças: um salto qualitativo na maturidade democrática dos povos e países. 
Estamos nos dando conta de que a Humanidade é muito mais semelhante e próxima, enfrenta problemas semelhantes e com isso, apenas enxergando-nos livres, iguais e fraternos, podemos pensar a dimensão global com mais clareza e tolerância. É uma mudança de época, haja vista vivermos hoje em um mundo muito mais integrado, interdependente e sensível ao que acontece além fronteiras. Os limites passados estão perdendo seus sentidos e abrindo o ser humano a outras dimensões de convivência.

A política tem sido um dos eixos mais criticados no que se refere à vida social. Apesar disso, em estudos promovidos pela Cátedra Chiara Lubich, pela Rede Universitária para o Estudo da Fraternidade e pelo movimento dos Focolares, diversos autores apontam a necessidade de se incluir a Fraternidade na vivência política. Como esta prática pode interferir e modificar a “cultura de corrupção” tão difundida no setor político?

À medida que cada agente político assume seu papel como corresponsável pelo outro, em função de se atingir o bem de todos, isso aumenta o controle social sobre a atividade política e viabiliza a accountability (prestação de contas) com maior transparência, como reciprocidade do cuidado pela coisa pública, que também é formada pela dimensão privada da vida. A corrupção na política é a distorção de sua própria essência, pois é a materialização do domínio público em prol do benefício privativo, desviando os objetivos originários dos recursos e das instituições políticas para garantir regalias a alguns, em detrimento de todos os demais, de modo desonesto. Assim, é preciso formar cidadãos conscientes desse papel de corresponsabilidade de todos por todos, para que possamos construir uma vida política aberta, limpa, que beneficie a mim, a você, aos demais, enfim, a todos nós.

Qual a proposta da Escola Civitas Asces e como esta iniciativa se relaciona com a adoção da  fraternidade como princípio pedagógico da instituição?

A Escola Civitas é um programa de formação cidadã e humanística que é desenvolvida em parceria com a Fundação Civitas, de São Paulo. No âmbito universitário, vem sendo ofertado como curso de extensão. Sua relação com a adoção da fraternidade como princípio pedagógico da Asces consiste no fato de que a Escola se baseia na ideia de que a fraternidade oferece conteúdo e prática políticas próprias e, portanto, para ser operacionalizada uma nova política é preciso formar cidadãos aptos a atuá-la. É um laboratório experimental, multidisciplinar, aberto, plural. Antes de tratarmos das ideologias, precisamos discutir o que as precede, o que nos une, para entender porque nos distinguimos e, eventualmente, lutamos ou até brigamos entre nós, se nossas origens de promoção do bem têm origem nas mesmas expectativas de melhoria e progresso humano?


Um dos eixos de atuação da Escola Civitas é a proposta de cursos de extensão. Já existe o projeto para a organização de uma nova turma? Se sim, qual o foco será abordado e quais pesquisadores a Asces pretende convidar para ministrar os módulos?

Esperamos repetir a Escola Civitas na Asces no segundo semestre desse ano, desta vez fazendo uso do material didático produzido pelos professores convidados em 2013 e já publicados em formato de livro pela Editora da UFPE. Também será uma oportunidade de realizarmos a abertura do curso com a conferência de um dos pioneiros no estudo da fraternidade como categoria política em todo o mundo, o professor italiano Antonio Baggio, que estará na Asces em meados de agosto. Logo no início do segundo semestre, portanto, os estudantes interessados deverão procurar o Núcleo de Extensão e Atividades Complementares (NEAC) para realizar sua inscrição. O início do curso está previsto para o dia 25/08/2014, com 50 horas de atividades complementares, sendo realizadas em cinco sábados de setembro e outubro.

 

 


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